domingo, 8 de maio de 2011

“VÁ E VEJA” (Rússia-1985)





"Quando abriu o quarto selo, ouvi a voz do quarto ser dizer: Vá e veja! E olhei, e eis um cavalo amarelo, e o que estava montado nele chamava-se Morte; e o Inferno seguia com ele; e foi-lhe dada autoridade sobre a quarta parte da terra, para matar com a espada, e com a fome, e com a peste, e com as feras da terra."


Apocalipse 6:7,8



"Vá e Veja" de Elem Klimov (Idi i Smotri-1985) mostra uma das zonas de guerra mais terríveis da história humana: a ocupação nazista da Bielorrússia. A história é vista através dos olhos de um adolescente em uma jornada vertiginosa, da inocência à loucura. E não é à toa que os especialistas o julgam o maior filme de guerra já feito.


A princípio eu não me atreveria a escrever sobre esse filme icônico, mas fiquei tão fascinado por ele que fui compelido a fazê-lo.



A brutalidade e o horror da II Guerra Mundial continua a fascinar por muitas razões. A luta na Europa Oriental, que era um grande teatro da batalha realizada à sombra do Holocausto, foi uma guerra de vontades entre dois dos maiores exércitos do continente, mas também entre os dois déspotas mais hediondos da história. Mas a atração real vai além de batalhas, e além de Hitler e Stalin.



Essa guerra fascina por causa de sua grande tragédia: mais de 30 milhões de pessoas mortas e seus resultados inflamaram a guerra fria e moldaram a região nos 50 anos seguintes. O heroísmo e o sofrimento por parte do povo russo e os dos países ocupados da Europa Oriental gerou inúmeras imagens horríveis, tão chocantes quanto o Holocausto.



Este filme, diferente de muitas produções que romanceiam a guerra, busca a visão da testemunha ocular dos eventos, um olhar incômodo no coração do horror. Apesar de quase documental em sua forma, o filme é sobretudo uma história de amadurecimento, onde o menino Florya (interpretado de forma soberba por Alexei Kravchenko), de 13 anos de idade, é forçado a testemunhar os horrores da invasão nazista.



O filme começa quando Florya está vivendo com sua família na Bielorússia. As primeiras cenas mostram ele e outro menino escavando a areia de um antigo campo de batalha à procura de rifles perdidos. No imaginário das duas crianças, esses “tesouros” são o passaporte para uma vida melhor: entrar para o exército. O pai de Florya, irritado com as obsseções do filho quanto à guerra, o repreende inúmeras vezes para que “páre de cavar” (a procura dessas armas).



Então um grupo de combatentes da resistência chegam para recrutar homens da aldeia para ajudá-los a lutar contra os nazistas invasores. Embora Florya queirar ir, sua mãe tenta de todos os meios impedí-lo, já consciente das atrocidades que o filho poderá assistir.



Cheio de idealismo e sonhos românticos sobre o guerra, o menino se junta aos combatentes e a princípio tudo se parece com o que ele esperava. Mas essa calmaria é apenas um logro para o que se segue. A guerra chega ao acampamento sem aviso, sem tempo para reação. Tudo explode e a realidade que o menino conhecia também é destroçada. Uma bomba torna-o surdo, e um zumbido ecoando em seus ouvidos se torna uma parte constante na trilha sonora do filme a partir de daí...



Vagando pela floresta arrasada, Florya encontra Glascha (Olga Mironova), uma bela adolescente.



Eles formam então um par improvável, e ele decide levá-la de volta parasua aldeia. Mas a mãe e as irmãs de Florya não estão na casa e os dois fogem para os pântanos, na esperança de encontrar os moradores da aldeia.



A corrida de Florya é uma tentativa de fugir da realidade brutal do que se passou na aldeia, obviamente massacrada pelo exército alemão.



A fuga é inútil e a verdade chega inevitavelmente até ele, e junto com ela uma imperiosa jornada ao pavor. Florya reencontra sobreviventes de sua aldeia arrasada e precisa confrontar o fato de que sua mãe e irmãs foram cruelmente assassinadas.




Apenas o seu velho pai conseguiu sobreviver. Queimado e aleijado, o velho parece ter sobrevivido apenas para falar uma última coisa ao seu filho: “eu falei para você não cavar”.



Após um tempo, os rebeldes finalmente matam alguns nazistas em sua área, mas Florya fica permanentemente assustado com tudo o que vê pela frente.




Dessas cenas chocantes, duas se destacam em sua brutalidade. Na primeira, Florya é brevemente preso com membros de outra aldeia e todos são trancados em um celeiro que mais tarde é incendiado pelos nazistas.



A crueldade sempre risonha dos soldados nazistas é de um sadismo chocante e incômodo.



Na segunda cena, vemos o retorno da menina Glascha depois de ser estuprada por soldados. Sua expressão é atormentadora.





Klimov não tem pudores em mostrar a loucura casual e visceral dos soldados. E os horrores espontâneos da guerra vão se delineando em uma espiral crescente.



E no meio desse vórtice está esse menino. A perda e o pavor estampados na expressão assombrada de Florya reune toda a tristeza e incompreensão dos conflitos da humanidade.



Não é um filme fácil de ver e de digerir. Mas depois de tantos anos lendo sobre essa obra eu fiquei muito feliz por finalmente poder assistí-la.



E esse filme deixa produções como "O Resgate do Soldado Ryan" a anos luz de distância. Klimov não busca nas técnicas cinematográficas uma catarse pelas vias do entrenimento.



Ele não usa música enaltecedora, nem cria heróis honrados para que aceitemos as razões da guerra. Pelo contrário, o diretor russo faz uso do cinema para passar uma mensagem antibelicista crua e contundente.



Definitivamente ficamos mudados depois de ver uma obra desse porte...


Antes de morrer, em 2003, o cineasta Elem Klimov ao comentar sobre “Vá e Veja” afirmou que seu objetivo não era contar uma história, mas mergulhar nas memórias de infância e tentar comunicar à platéia o assombro e a confusão de sentimentos que experimentou, enquanto a família tentava escapar da ofensiva alemã na Bielo-Rússia (país a oeste da Rússia), em 1941.





Um dos grandes méritos técnicos de "Vá e Veja" está em suas tomadas continuas onde acompanhamos de perto (na altura do olhar) os personagens correndo, fugindo, caindo... Essas cenas primorosas foram feitas graças a um equipamento chamado "Steadicam".


A steadicam é um equipamento criado em 1975 e consiste de um sistema onde a câmera é acoplada ao corpo do operador através de um colete onde é instalado um braço que serve para estabilizar as imagens produzidas, dando a impressão de que a câmera flutua.



Klimov não foi o primeiro cineasta a usar a Steadicam em cinema, mas foi pioneiro em explorar largamente esse recurso que aproxima o expectador à ação em tela.


SOBRE O DVD: a boa notícia é que o filme finalmente foi lançado em DVD aqui no Brasil. A edição da LUME é bem simples, contando apenas como extra um texto do ator Sean Penn sobre a obra. Eu preferi adiquirir o DVD importado de Portugal, que foi feito a partir da matriz restaurada, remasterizada e conta com alguns extras bem legais (entrevistas com atores e cinegrafistas, além de pequenos documentários). Quem não achar por aí e quiser muito, pode entrar em contato (rub.records@yahoo.com.br)

TRAILER DO FILME







4 comentários:

  1. Me parece ser uma obra para assistir e refletir sobre a vida.

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  2. Gostei muito do filme e do seu texto!

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  3. medo desse filme...mas vou assistir. excelente resenha!

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